25 de set. de 2008


Estava escrevendo um post imenso, sobre aprendizado e perdas, mas o computador fez o favor de me mostrar como é perder algo que se quer muito.Claro, não havia salvo! Mas o que tirei de bom nessa brincadeira, além do óbvio: salve seus documentos, é que a vida se encarrega de fazer com que o desnecessário seja deletado.Parece que um dia ela simplesmente te acorda e diz: "chega, vá viver" e pronto! Como por encanto as roupas da moda já não interessam mais, nem os garotinhos da balada, você tem contas a pagar e não recolheu a roupa, que lástima, choveu. E não é o mundo não que se transformou, ou aliens te abduziram, nada disso, é a maturidade. Existem bilhões de jeitos de mostrar que agora você não é mais o "bebêzinho do papai", mas todos esses caminhos levam sempre ao mesmo lugar: às responsabilidades.E são muitas! Como a vida adulta é difícil! Desejo fervorosamente voltar a ser criança, apesar de que nessas alturas do campeonato, o máximo que eu conseguiria era parecer uma retardada mental, já basta meu cabelo vermelho e o urso de pelúcia, que são resquícios suficientes da minha infância feliz. É engraçado que parei pra reparar também aqueles que se dizem prontos pra vida, e rio sozinha, porque a maioria esmagadora deles não tem nem noção de como realmente é viver. Não se é adulto negligenciando os afazeres, só limpar a casa não te torna tão mais maduro do que alguém que só estuda, de qualquer forma, o interessante é ter os dois. Percebi que crescer te possibilita exatamente isso: ser tudo! Mãe, empregada, amante, executiva, professora, mendiga - quem nunca anda com roupas velhas em casa, né? - psicóloga, motorista, camelô; entre uma infinidade de papéis que aprendemos - volutaria ou involuntariamente - a desempenhar. Então, podendo conhecer e explorar cada uma dessas alternativas, nem que seja um pouquinho, escolher uma só e nem tentar me parece pouco inteligente.Sei que é humanamente impossível e que super-heróis não existem de fato, mesmo assim, vale a pena arriscar. E não digo isso como lição de moral de gente velha, escrevo por que também preciso me conscientizar disso.É como se não bastasse a vida ter me acordado, é como se eu precisasse de um chacoalhão.Penso, inclusive, que se passou tão rápido e a vida adulta veio tão sem aviso prévio, que o resto das etapas provavelmente também virá assim, de sopetão, por isso é necessário viver bem até o próximo despertar. E das lições que tiramos no caminho, o importante é não se apegar às abóboras inteiras, precisando carregar algo, leve só as sementes, é bem mais leve.São ensinamentos básicos que às vezes, na correria, não percebemos, mas Lya Luft já disse uma vez: "das perdas, é preciso perdê-las".Não adianta passar a vida carregando o fardo das dores passadas, nem dos fracassos ou desilusões.Quando decidires qual estrada, leva o mínimo, pra que tu mesmo não atrapalhe teu caminho; os obstáculos que fatalmente aparecerão já são incomodações suficientes para que tenhas que pensar em mágoas pessoais.Sei o quanto é difícil esquecer algo que realmente nos causa sofrimento, mas pense no quanto bom é descobrir-se e limpar-se.Várias vezes passa a idéia de que não consigo mais e com o que resta de esforço, dobro a esquina e lá vem o sol no meu rosto, como que pra mostrar que ainda vale a pena. Alguns dos pesos mais imobolizantes estou deixando pra trás, ao menos, estou tentando deixá-los, como o próprio medo de perder.Soa engraçado, mas vivi minha vida antecipando os acontecimentos e indo embora.Perder, propriamente dito, nunca foi parte do plano, era como se eu necessitasse sair vitoriosa sempre, mesmo que isso custasse o desfecho da história, que eu jamais iria ver.Era seguro não perder.E ficava ali, como diria Clarice Lispector, com a minha "terceira perna", ela era inútil, mas me dava uma sensação de estabilidade que eu sabia não tem ser ela.Agora caminhar com três pernas é, no mínimo, difícil e, se dá pra continuar seguindo só com duas, porque carregar o peso morto só pra ter algo pra segurar? Tá, é uma pergunta retórica.Nem eu sei a resposta.O que sei é que no momento em que se toma consciência dessa terceira perna, não fazer nada não é uma opção! Ela está ali, você a viu, ela é sua: mova-se! Não há mais escapatória.Nessas horas penso em frases batidas como "o que os olhos não vêem, o coração não sente" e penso que é por ai mesmo, mas depois que os olhos se dão conta, a possibilidade do resto não sentir é nula. Parece com o despertar de um sonho bom, mesmo que tente voltar a dormir, as coisas não serão as mesmas.Aquela sensação de ilusão é maravilhosa e benéfica, até o momento em que cessa, ai, é fatal. Posso até arriscar o palpite que a cada "despertar" você não é mais a pessoa que dormiu na noite anterior.Uma das amarras dos sonhos de libertou e a realidade te deu uma eletrocutada básica, só pra provar que ainda está ali. Sabe, não é ruim estar com os pés no chão, o que é mais prejudicial é o tombo ao término de uma utopia.Feliz, ou infelizmente, faz parte de crescer.

Só não esqueça de salvar ... ;** por que o bom, deve permanecer.

Um comentário:

Necka Ayala = NA disse...

Ler isso foi bom, porque refez todo o percurso a algo que havia dito no cd e, posteriormente, esquecido: ver é irreversível! Aprecio a forma como percorres teus caminhos. Como chegas às tuas constatações. Te admiro e, portanto, te gosto mais ainda a cada troca, a cada post e a cada canção cantada contigo! A vida, aos poucos e com suas insuspeitas formas de ação, nos fez salvas: Silvia, Necka e Vanessa. Incrível! Beijo!